domingo, 7 de março de 2010

O ZÉ PEQUENO

Há cerca de 60 anos e com menos de metro e meio de altura, “aterrou” na Ponte de Mucela uma figura amável, simpática e solícita que vindo da Beira Alta, desde logo ficou assim apelidado Zé Pequeno. Já não era criança.


Na época, a Ponte de Mucela era muito mais movimentada: não havia os IP’s – o que obrigava a maior parte do trânsito do Norte a usar a famosa Estrada da Beira – já tinha bomba de gasolina, telefone público – único entre S. Martinho da Cortiça e Vila Nova de Poiares – automóvel de aluguer e duas camionetas de carga, três fornos de cal, padaria, fábrica de resina, estalagem, taberna, mercearia, moenda, lagar e dois carreiros (transportadores em carros de tracção bovina). As camionetas de carreira – assim se chamavam os transportes públicos de então faziam ali paragem obrigatória para reabastecimento dos passageiros – ainda hoje são recordadas as famosas sandes de vitela assada – carga e descarga para as redondezas especialmente passageiros destinados às três bruxas que então havia nos arredores. De tudo isto restam o telefone público, a moenda e um café!

Entretanto foram criados um antiquário, uma empresa de comercialização de materiais de construção e uma oficina auto, estando a ser revitalizada a União da Ponte de Mucela, pessoa colectiva de Utilidade Pública, há anos paralisada.

O industrial e comerciante José Serra Campos deu ao Zé Pequeno alojamento no anexo de um dos seus dois fornos de cal.

O bom do Zé Pequeno facilmente se acomodou e recados não lhe faltavam, especialmente por via das chamadas telefónicas com aviso prévio, alertando os destinatários das redondezas para as horas a que deveriam comparecer, bem como ensinando os caminhos para as três «clínicas» já referidas, recolhendo assim fundos para subsistir, indo a maior parte dos mesmos para vinho.

Desde o tempo das diligências a Ponte de Mucela tinha várias cocheiras (já que ali era local de muda de gado e reabastecimento) que eram disponibilizadas a troco do estrume das bestas para fertilização das terras. Grande parte do transporte de mercadorias era feita por galeras e carroças que ali pernoitavam. Chegavam pela tardinha, arrumavam, dessedentavam o gado no rio, traziam-no para as manjedoiras, para repasto e descanso. Os carroceiros dormiam por lá, nas cocheiras em tempo de frio, ou nas carroças em tempo quente, e por lá comiam os farnéis que traziam consigo, por vezes com reforço de uma sopinha comida na estalagem. Também por lá transitavam enormes rebanhos que, fugindo ao rigor do Inverno na Serra da Estrela, ficavam do Outono à Primavera, sendo muito bem recebidos, porque além de limparem a erva, também fertilizavam os terrenos, especialmente as ínsuas, para posterior sementeira.

O Zé Pequeno era pessoa de inteira confiança, excepto se tivesse vinho à mão: aí bebia até poder e a partir de então passava a dar vivas à República e ao socialismo, independentemente de quem estava presente, nunca tendo sido incomodado, apesar de então serem proibidas tais manifestações! Chamado à atenção respondia invariavelmente: vossas «inxelências» já sabem o meu fraco!

Em consequência das inúmeras pielas deu muitos trambolhões. O mais notado seguiu-se a uma soneca que o Zé Pequeno resolveu fazer no muro em frente do café, ao virar-se, julgando-se certamente na palhota, caiu para a calçada, e aqueles dois metros de altura deixaram-no em mísero estado.

Certo dia, o Zé Pequeno andava com uma daquelas habituais bebedeiras incomodando toda a gente, e foi corrido pela estrada acima, indo pernoitar numa cocheira do também conceituado Marinheiro (de seu nome António Joaquim Coimbra) tendo dado origem a um enorme incêndio, com consequências bem desagradáveis. Por vezes tinha as suas maleitas, e as pessoas diziam-lhe que não tinha juízo, e que mais tarde ou mais cedo 2embarcava”. E ele lá se recompunha – mais copo menos copo – e sempre dizia: “Eu morro no mesmo dia do Sr. José Serra”, que muito estimava. E assim foi, morreram os dois no mesmo dia.

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