quarta-feira, 17 de novembro de 2010

FACTOS

FACTOS

Como já é do nosso conhecimento, sediados na Ponte de Mucela existiram três camionetas de aluguer para transporte de mercadorias e um automóvel também de aluguer (hoje denominado táxi, como então já o era nas cidades). Recordo que curiosamente a pequenada – que nessa altura abundava – dizia com frequência: Caetano Martins Ribeiro tem três camionetas e um carro ligeiro!

Duas das camionetas eram normalmente utilizadas em longo curso em especial no transporte de madeira. Muitas centenas de milhares de toneladas foram para as cofragens do Arieiro (em Lisboa) e de Almada, tendo como um dos maiores clientes o conterrâneo Mário da Costa Bica, que entretanto se tornou um grande construtor. No retorno geralmente carregavam víveres para Coimbra. Na altura estudante em Lisboa utilizava com frequência as suas boleias nas viagens de férias, daí o meu conhecimento dos factos, não podendo deixar de salientar que o transporte das dádivas da CÁRITAS para Coimbra era feito Gratuitamente. A camioneta mais pequena era utilizada regionalmente, por vezes recolhendo carga para as demais outras transportando lenha para Coimbra.

No início da II Grande de Guerra ao avanço dos alemães correspondia a fuga de pessoas e bens em grande parte via Portugal. O ouro não foi excepção e o prestígio de Caetano Martins Ribeiro foi evidente ao ser lhe fretada uma camioneta para o respectivo transporte da fronteira do Caia para o Banco de Portugal, missão levada a cabo pelos José Moura e Manuel Coelho, de boa memória, missão essa que perdurou, não me sendo agora possível recordar por quanto tempo. Dado o valor transportado, 2 elementos da guarda (republicana ou fiscal, não me recordo) com as armas devidamente municiadas, faziam parte da tripulação em cima da carga: 2,5 toneladas de ouro (se fosse hoje seria preciso um batalhão!)
Durante a guerra – 1939/45 – as dificuldades na obtenção de produtos foram surgindo gradualmente, com especial incidência para os de importação. As carências foram tantas que impuseram um sistema de racionamento e deram origem ao desenvolvimento do mercado negro onde as “cunhas”, à boa maneira portuguesa, imperaram. Desde os víveres aos combustíveis e pneus tudo era contrabandeado. Assim surgiram os motores a carvão – gás pobre ou gasogénio – e os mouchões (pedaços de pneu aparados) quantas vezes suportados por parafusos de cabeça de tremoço introduzidos nos pneus através de furos feitos com ferro em brasa.

Houve que transformar uma das camionetas de longo curso – a carvoeira – que chegou a ser a única em funcionamento, mesmo assim suficiente para evitar despedimentos. Era mais lenta e mantê-la em bom funcionamento era trabalho penoso e sujo.

Recordo-me que em determinada altura foram atribuídos pelo referido racionamento dois pneus para a frente de uma das camionetas de longo curso o que deu lugar festa com música, foguetes e espumante!

Numa manhã de Domingo ou feriado o Moura afinava os travões da LF (BEDFORD de longo curso) em frente da garagem e, pensando que o ajudante ainda ali estava disse” Manel carrega aí no travão”mas ajudante tinha-se afastado e, por azar, passava outro Manuel que por ignorância carregou no pedal da embraiagem e o peito do Moura ficou a calçar a camioneta, dado o declive, mal podendo gritar e com os olhos a saltar das órbitas. Transportado imediatamente para Coimbra e a despeito do seu mau estado o Moura sobreviveu para grande alegria dos seus muitos amigos. Dias depois foi recebido com música e foguetes. O Octávio, proprietário da Venda, pôs à disposição geral um barril de 200 litros de vinho e um saco com 50 kg de tremoços. Foi comer e beber até fartar!

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