A bruxaria
Nas vizinhas aldeias de Moura Morta, Mucela e Barreiro e nas décadas de 30 a 60, estiveram em grande evidência as respectivas bruxas com destaque para Palmira da Moura Morta, cuja clientela era superior à de ambas as concorrentes. Nada pedia aceitando o que lhe era dado, mas mesmo assim, dava para manter bem a família mais chegada. A grande clientela dava muito movimento à Ponte de Mucela, já que a quase totalidade dos visitantes aqui descia e retomava transporte. Não dispondo de grandes meios e trazendo farnel, sempre comiam umas sopas e tomavam umas bebidas. Também em São Miguel de Poiares havia um bruxo muito frequentado.
Clementina Lobo
A Clementina Loba – como era conhecida - foi trabalhar para Coimbra donde regressou casada com um engraxador conhecido por Cates que desconhecendo as actividades agrícolas abraçou as caseiras, ficando a Clementina com o tratamento das terras. Tinham os seus desentendimentos e por vezes para além da barulheira o Cates tosava a mulher que, procurando iludir quem os ouvia, ia dizendo oh Abílio deixa-te dessas brincadeiras de estudante!
Sem herdeiros deixaram os bens ao casal Paredes que gerou uma simpática e considerada família.
A aspirina salvou lhe a vida
De Sabouga para Angola rumou um dos irmãos Ferreira, pai de numa reputada locutora da rádio (Iolanda Ferreira se a memória me não trai) e de AUGUSTUS, hoje uma figura de projecção no mundo da moda, dedicando-se ao negócio de madeiras em zona das mais activas visando a independência. O simpático Ferreira com quem tive bastante contacto em Luanda andava sempre munido de comprimidos de aspirina que ministrava a todos os nativos que se queixavam de dores. Aprisionado por desconhecidos e prestes a ser fuzilado, surgiu um seu beneficiário que gritou: não
mata, é bom branco!
Acompanhamento diminuto
O Pinto de Vale do Tronco rumou a Moçambique na sua juventude. Para além dos meios que lhe permitiram uma vida sem dificuldades aparentes aprendeu a fazer cerveja, que gostava de oferecer aos amigos. Era uma companhia agradável e foi dos primeiros motorizados da região, que por volta de 1940 já se fazia transportar de motocicleta. Não ia a funerais e inquirido respondia invariavelmente que o defunto(a) também não iria ao seu! Quando chegou a sua vez, a cerimónia fúnebre circunscreveu-se à família mais chegada!
Fulano e Fulana
Ele imigrou para o Brasil deixando mulher e descendência na Ponte de Mucela, onde foram vivendo como podiam. Quando regressou anos depois considerou-se de estatuto superior à família, a tal ponto, que contava a quem queria ouvir que dormia na cama e a mulher dormia na palhota que tinha lá no quarto. Aquando lhe apetecia convocava fulana vem cá e ela vem, depois do serviço acabado determinava, fulana vai para a palhota e ela vai!
Augusto Alípio
Era conhecido por Augustolípio, proprietário de grande parte do terreno entre o fundo de Mucela e a Valeira, que arroteava com dedicação. Gostava do seu copito e por vezes agia em consequência. Em determinado ano a sua cultura de gramíneas foi excepcional e, em contra partida, não conseguiu ceifeiras para a colheita. Perdeu a estribeira e incendiou a seara! Ao grito de acudam ao incêndio as forças vivas reagiram imediatamente, especialmente as mulheres que estavam mais próximo. Sob os efeitos etílicos, o Augustolípio gritou: suas cabras para ceifar não tinham tempo, mas agora têm; deixem arder que é meu e investiu com o bordão que trazia consigo!
Francisco Simões Alípio
Filho do Augustolípio era conhecido por Chico do Concelho, era um trabalhador inveterado mas não gostava de calor e de verão era frequente trabalhar de noite à luz de uma candeia. Como não gostava de desperdiçar o tempo quando lhe apetecia urinar aguardava a altura de ter que mudar a candeia para o fazer!
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
FACTOS
FACTOS
Como já é do nosso conhecimento, sediados na Ponte de Mucela existiram três camionetas de aluguer para transporte de mercadorias e um automóvel também de aluguer (hoje denominado táxi, como então já o era nas cidades). Recordo que curiosamente a pequenada – que nessa altura abundava – dizia com frequência: Caetano Martins Ribeiro tem três camionetas e um carro ligeiro!
Duas das camionetas eram normalmente utilizadas em longo curso em especial no transporte de madeira. Muitas centenas de milhares de toneladas foram para as cofragens do Arieiro (em Lisboa) e de Almada, tendo como um dos maiores clientes o conterrâneo Mário da Costa Bica, que entretanto se tornou um grande construtor. No retorno geralmente carregavam víveres para Coimbra. Na altura estudante em Lisboa utilizava com frequência as suas boleias nas viagens de férias, daí o meu conhecimento dos factos, não podendo deixar de salientar que o transporte das dádivas da CÁRITAS para Coimbra era feito Gratuitamente. A camioneta mais pequena era utilizada regionalmente, por vezes recolhendo carga para as demais outras transportando lenha para Coimbra.
No início da II Grande de Guerra ao avanço dos alemães correspondia a fuga de pessoas e bens em grande parte via Portugal. O ouro não foi excepção e o prestígio de Caetano Martins Ribeiro foi evidente ao ser lhe fretada uma camioneta para o respectivo transporte da fronteira do Caia para o Banco de Portugal, missão levada a cabo pelos José Moura e Manuel Coelho, de boa memória, missão essa que perdurou, não me sendo agora possível recordar por quanto tempo. Dado o valor transportado, 2 elementos da guarda (republicana ou fiscal, não me recordo) com as armas devidamente municiadas, faziam parte da tripulação em cima da carga: 2,5 toneladas de ouro (se fosse hoje seria preciso um batalhão!)
Durante a guerra – 1939/45 – as dificuldades na obtenção de produtos foram surgindo gradualmente, com especial incidência para os de importação. As carências foram tantas que impuseram um sistema de racionamento e deram origem ao desenvolvimento do mercado negro onde as “cunhas”, à boa maneira portuguesa, imperaram. Desde os víveres aos combustíveis e pneus tudo era contrabandeado. Assim surgiram os motores a carvão – gás pobre ou gasogénio – e os mouchões (pedaços de pneu aparados) quantas vezes suportados por parafusos de cabeça de tremoço introduzidos nos pneus através de furos feitos com ferro em brasa.
Houve que transformar uma das camionetas de longo curso – a carvoeira – que chegou a ser a única em funcionamento, mesmo assim suficiente para evitar despedimentos. Era mais lenta e mantê-la em bom funcionamento era trabalho penoso e sujo.
Recordo-me que em determinada altura foram atribuídos pelo referido racionamento dois pneus para a frente de uma das camionetas de longo curso o que deu lugar festa com música, foguetes e espumante!
Numa manhã de Domingo ou feriado o Moura afinava os travões da LF (BEDFORD de longo curso) em frente da garagem e, pensando que o ajudante ainda ali estava disse” Manel carrega aí no travão”mas ajudante tinha-se afastado e, por azar, passava outro Manuel que por ignorância carregou no pedal da embraiagem e o peito do Moura ficou a calçar a camioneta, dado o declive, mal podendo gritar e com os olhos a saltar das órbitas. Transportado imediatamente para Coimbra e a despeito do seu mau estado o Moura sobreviveu para grande alegria dos seus muitos amigos. Dias depois foi recebido com música e foguetes. O Octávio, proprietário da Venda, pôs à disposição geral um barril de 200 litros de vinho e um saco com 50 kg de tremoços. Foi comer e beber até fartar!
Como já é do nosso conhecimento, sediados na Ponte de Mucela existiram três camionetas de aluguer para transporte de mercadorias e um automóvel também de aluguer (hoje denominado táxi, como então já o era nas cidades). Recordo que curiosamente a pequenada – que nessa altura abundava – dizia com frequência: Caetano Martins Ribeiro tem três camionetas e um carro ligeiro!
Duas das camionetas eram normalmente utilizadas em longo curso em especial no transporte de madeira. Muitas centenas de milhares de toneladas foram para as cofragens do Arieiro (em Lisboa) e de Almada, tendo como um dos maiores clientes o conterrâneo Mário da Costa Bica, que entretanto se tornou um grande construtor. No retorno geralmente carregavam víveres para Coimbra. Na altura estudante em Lisboa utilizava com frequência as suas boleias nas viagens de férias, daí o meu conhecimento dos factos, não podendo deixar de salientar que o transporte das dádivas da CÁRITAS para Coimbra era feito Gratuitamente. A camioneta mais pequena era utilizada regionalmente, por vezes recolhendo carga para as demais outras transportando lenha para Coimbra.
No início da II Grande de Guerra ao avanço dos alemães correspondia a fuga de pessoas e bens em grande parte via Portugal. O ouro não foi excepção e o prestígio de Caetano Martins Ribeiro foi evidente ao ser lhe fretada uma camioneta para o respectivo transporte da fronteira do Caia para o Banco de Portugal, missão levada a cabo pelos José Moura e Manuel Coelho, de boa memória, missão essa que perdurou, não me sendo agora possível recordar por quanto tempo. Dado o valor transportado, 2 elementos da guarda (republicana ou fiscal, não me recordo) com as armas devidamente municiadas, faziam parte da tripulação em cima da carga: 2,5 toneladas de ouro (se fosse hoje seria preciso um batalhão!)
Durante a guerra – 1939/45 – as dificuldades na obtenção de produtos foram surgindo gradualmente, com especial incidência para os de importação. As carências foram tantas que impuseram um sistema de racionamento e deram origem ao desenvolvimento do mercado negro onde as “cunhas”, à boa maneira portuguesa, imperaram. Desde os víveres aos combustíveis e pneus tudo era contrabandeado. Assim surgiram os motores a carvão – gás pobre ou gasogénio – e os mouchões (pedaços de pneu aparados) quantas vezes suportados por parafusos de cabeça de tremoço introduzidos nos pneus através de furos feitos com ferro em brasa.
Houve que transformar uma das camionetas de longo curso – a carvoeira – que chegou a ser a única em funcionamento, mesmo assim suficiente para evitar despedimentos. Era mais lenta e mantê-la em bom funcionamento era trabalho penoso e sujo.
Recordo-me que em determinada altura foram atribuídos pelo referido racionamento dois pneus para a frente de uma das camionetas de longo curso o que deu lugar festa com música, foguetes e espumante!
Numa manhã de Domingo ou feriado o Moura afinava os travões da LF (BEDFORD de longo curso) em frente da garagem e, pensando que o ajudante ainda ali estava disse” Manel carrega aí no travão”mas ajudante tinha-se afastado e, por azar, passava outro Manuel que por ignorância carregou no pedal da embraiagem e o peito do Moura ficou a calçar a camioneta, dado o declive, mal podendo gritar e com os olhos a saltar das órbitas. Transportado imediatamente para Coimbra e a despeito do seu mau estado o Moura sobreviveu para grande alegria dos seus muitos amigos. Dias depois foi recebido com música e foguetes. O Octávio, proprietário da Venda, pôs à disposição geral um barril de 200 litros de vinho e um saco com 50 kg de tremoços. Foi comer e beber até fartar!
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
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